Falácia do jogador
A crença de que um resultado está “atrasado” porque não aparece há algum tempo.

Depois de dez vermelhos, a probabilidade de preto continua sendo 18/37. A roda não guarda registro e não deve nada a ninguém.
A falácia
Se o vermelhoapostaVermelhoAposta simples nos 18 números vermelhos. Em francês: rouge.Ler tudo → saiu dez vezes, muitos jogadores sentem que o pretoapostaPretoAposta simples nos 18 números pretos. Em francês: noir.Ler tudo → está “atrasado” e apostam de acordo. Outros sentem que o vermelho está “quente” e apostam nele. Os dois raciocinam a partir de uma sequência que já terminou para um giro que ainda não aconteceu. A bolaequipamentoBolaA pequena bola lançada ao longo da pista no sentido contrário ao do rotor. As bolas modernas são de ivorine ou de Teflon, com 18–21 mm.Ler tudo → não sabe quais foram os últimos dez giros; os compartimentosequipamentoCompartimentoUma das 37 divisões numeradas do rotor. Também: casela.Ler tudo → têm o mesmo tamanho que tinham uma hora atrás; a probabilidadematemáticaProbabilidadeMedida da possibilidade de um resultado, de 0 a 1 ou de 0% a 100%. Um número: 1/37 = 2,70%.Ler tudo → de preto é 18/37, como sempre foi.
Por que parece verdade
A longo prazo, as proporções de vermelho e de preto de fato convergem para 18/37 cada. A lei dos grandes númerosmatemáticaLei dos grandes númerosA média de resultados independentes converge para o valor esperado à medida que o número de tentativas aumenta.Ler tudo → garante isso. Mas a convergência acontece por diluição, não por correção: depois de mais 1.000 giros, os dez vermelhos a mais são um erro de arredondamento na proporção, não porque o preto tenha recuperado, mas porque a amostra cresceu. Não existe nenhum mecanismo que torne o preto mais provável, e a lei dos grandes números também não exige nenhum.
Monte Carlo, 18 de agosto de 1913
O preto saiu 26 vezes seguidas em uma mesa do Casino de Monte-Carlo. A partir de mais ou menos o décimo quinto preto, os jogadores se amontoaram no vermelho, dobrando e redobrando, cada giro “mais certo” do que o anterior. O cassino ganhou milhões de francos. A sequência tinha probabilidade de 1 em 137 milhões a partir do primeiro preto, e a probabilidade de que ela acabasse acontecendo em algum lugar nos cassinos do mundo era essencialmente um. É por isso que a falácia do jogador também se chama falácia de Monte Carlo.
Nada de especial. Acontece uma vez em 44.
Os jogadores começam a notar. O vermelho está “atrasado”.
A mesa está lotada. As apostas no vermelho dobram depois de cada perda.
Fortunas perdidas. Cada novo preto faz o vermelho parecer mais certo.
A sequência termina. O cassino ganhou milhões de francos de pessoas que apostavam contra uma sequência que não tinha como “saber” que era uma sequência.
A mão quente
Apostar em uma cor porque ela está em sequência é o mesmo erro ao contrário: espera-se que a sequência continue, e não que acabe. Os psicólogos chamam isso de mão quentemitoMão quenteA crença de que uma sequência de ganhos, ou de um mesmo resultado, torna outro mais provável. Na roleta, é a falácia do jogador ao contrário.Ler tudo →, por causa de um estudo de 1985 de Gilovich, Vallone e Tversky que procurou sequências nos arremessos de basquete e não encontrou nenhuma além do acaso. Em 2018, Miller e Sanjurjo mostraram que o próprio teste estava inclinado: em um registro curto, a proporção de acertos logo depois de um acerto fica, em média, abaixo da taxa geral do arremessador, de modo que um jogador sem nenhuma mão quente parece um pouco frio. Corrigidos, os mesmos dados mostram uma mão quente modesta. Uma pessoa pode entrar em boa fase; uma roda não tem fase nenhuma. Alguns jogadores sustentam as duas crenças ao mesmo tempo: uma sequência continua até ficar “longa demais”, e aí acaba. Em uma roda equilibrada, cada versão tem o mesmo valor esperadomatemáticaValor esperadoO resultado médio por aposta a longo prazo. −1/37 da aposta em todas as apostas padrão da roleta europeia.Ler tudo → que escolher a cor no cara ou coroa: −2,70% da aposta.
Em uma mesa de verdade
Croson e Sundali (2005) assistiram a 18 horas de vídeo de segurança de uma mesa de duplo zerorodaZeroO único compartimento verde, que nenhuma aposta simples, dúzia ou coluna cobre; a origem da vantagem da casa. Também: zero único, 0.Ler tudo → em um grande cassino de Reno: 139 jogadores fazendo 24.131 apostas. Nas apostas simplesapostaAposta simplesVermelho/preto, ímpar/par, alto/baixo. 18 números, paga 1:1.Ler tudo → (pagam 1:1), os jogadores se dividiram mais ou menos por igual entre seguir as sequências curtas e contrariá-las. Depois de cinco resultados iguais seguidos, passavam a apostar contra a sequência, e depois de seis ou mais, 85% das apostas iam para o outro lado. Os mesmos jogadores mostravam a mão quente em relação a si mesmos: depois de um ganho nos números, cobriam em média 13,6 números no giro seguinte, contra 9,2 depois de uma perda. A roda deles não mostrava sinal de viés, então nada disso mudava o que qualquer um deles podia esperar.
Fora do cassino
O mesmo impulso aparece onde se tomam decisões reais. Clotfelter e Cook (1993) acompanharam o jogo diário de números de Maryland: o dinheiro apostado em um número caía bruscamente assim que ele era sorteado e levava meses para se recuperar, embora o sorteio não tenha memória. Chen, Moskowitz e Shue (2016) encontraram o mesmo efeito entre profissionais. Juízes de asilo dos Estados Unidos tinham até 3,3 pontos percentuais a mais de probabilidade de negar um pedido se tivessem concedido o anterior. Árbitros de beisebol tinham 1,5 ponto a menos de probabilidade de marcar um strike depois de marcar outro, e mais que o dobro disso nos arremessos duvidosos. Em um experimento de campo com analistas de crédito que recebiam um valor fixo, até 9% das decisões foram invertidas dessa forma. Os casos chegavam em ordem aleatória, então a última decisão não dizia nada sobre a próxima, assim como o último giro não diz nada sobre o seguinte.
A falácia inversa do jogador
O filósofo Ian Hacking (1987) deu nome a uma terceira versão. Alguém entra em uma sala, vê um par de dados cair em duplo seis e conclui que eles já devem ter sido lançados muitas vezes. Todo lançamento tem a mesma probabilidade de dar duplo seis, seja o primeiro da noite ou o milésimo, então a cena não diz nada sobre há quanto tempo o jogo está rolando. Na roleta, é o jogador que chega a uma mesa cujo painel mostra oito vermelhos e decide que a roda deve estar girando há horas para produzi-los. A falácia comum projeta o passado no próximo giro; esta projeta uma cena rara em um passado que ninguém viu.
Um psicólogo que acreditava nela
A falácia já teve defensores eruditos. O psicólogo alemão Karl Marbe examinou quatro registros de 49.152 nascimentos cada, descobriu que a sequência mais longa de meninos ou de meninas seguidos era de 17 e concluiu que as sequências longas são mais raras do que o acaso permite, de modo que uma sequência torna o outro resultado mais provável. O acaso sozinho diz o contrário: em 196.608 nascimentos, uma sequência de 17 ou mais aparece cerca de quatro vezes em cinco. Marbe tinha encontrado exatamente o aspecto de uma sequência aleatória. Epstein (2013) reconta o caso; Probabilidade de sequências traz a versão da roleta.
Onde a falácia não se aplica
Se a roda fosse fisicamente enviesada, os giros passados seriam informativos, porque seriam evidência sobre os compartimentos e não sobre a sorte. Esse é o tema do Laboratório, e ele exige milhares de giros de uma roda identificada para dizer alguma coisa. Para uma sequência de dez vermelhos em uma roda desconhecida, a explicação do viés é muito menos provável do que a do acaso.
Perguntas
Não. Ela vale para qualquer evento independente e repetido: dados, moedas, números de loteria.
As proporções vão ficar próximas. Seu resultado ainda vai ser de cerca de −2,70% do que você apostou.
Não existe lei das médias. Existe uma lei dos grandes números, e ela funciona por diluição.
Matemática divertida
Tente resolver sozinho primeiro. Cada solução está escondida; abra quando estiver pronto.
Depois de 10 lançamentos, uma moeda mostra 7 caras e 3 coroas. Depois de 1.000 lançamentos, mostra 517 caras e 483 coroas. As coroas tiraram o atraso?
Mostrar a solução
Resposta Não. A diferença cresceu de 4 para 34. Só a proporção chegou mais perto do equilíbrio.
A proporção entre caras e coroas caiu de 7/3, cerca de 2,33, para 517/483, cerca de 1,07. É a lei dos grandes númerosmatemáticaLei dos grandes númerosA média de resultados independentes converge para o valor esperado à medida que o número de tentativas aumenta.Ler tudo → em ação.
A diferença entre elas cresceu, de 4 para 34. Com uma moeda honesta, uma diferença de uns 30 depois de 1.000 lançamentos é normal: a diferença típica cresce mais ou menos com a raiz quadrada do número de lançamentos, enquanto a proporção se aproxima de 1.
Nada puxou as coroas de volta. O excesso inicial de caras foi diluído pelos 990 lançamentos seguintes, não corrigido.
Lance uma moeda quatro vezes e olhe só para os lançamentos que vêm logo depois de uma cara. Que proporção deles dá cara? Calcule isso para cada uma das 16 sequências possíveis e tire a média das proporções. Dá 50%?
Mostrar a solução
Resposta Não. Dá 17/42, cerca de 40,5%. Vista dessa forma, uma moeda honesta parece esfriar depois de uma cara.
Liste as 16 sequências, com H para cara e T para coroa. Duas delas, TTTT e TTTH, não têm nenhuma cara entre os três primeiros lançamentos, então nada vem depois de uma cara; sobram 14.
Em cada uma, pegue os lançamentos que vêm depois de uma cara e veja que proporção deles dá cara. HHHH dá 3 de 3. HHHT dá 2 de 3. HTHT dá 0 de 2. Percorrendo as 14: seis sequências dão 0, quatro dão 1/2, uma dá 2/3 e três dão 1 (HHHH, THHH e TTHH).
Some as proporções: 4 × 1/2 + 2/3 + 3 = 17/3. Divida por 14: 17/42 ≈ 40,5%.
Nenhum lançamento favorece a coroa; cada um é 50–50. A inclinação vem de tirar a média sequência por sequência: uma sequência cheia de caras tem muitos lançamentos para olhar, mas conta uma vez só, igual a uma sequência com uma única cara. Miller e Sanjurjo (2018) mostraram que o estudo de 1985 sobre a mão quente tinha medido seus jogadores de basquete dessa forma, de modo que jogadores que pareciam não ter mais sequências do que o acaso na verdade tinham um pouco mais.
Pausa para rir

Diluição, não correção. A roda não deve nada.
Fontes
- Feller, W. An Introduction to Probability Theory and Its Applications, Vol. 1.
- Schwartz, D. G. Roll the Bones: The History of Gambling.
- Ethier, S. N. The Doctrine of Chances: Probabilistic Aspects of Gambling.
- Epstein, R. A. The Theory of Gambling and Statistical Logic, 2nd ed.
- Croson, R. & Sundali, J. “The gambler’s fallacy and the hot hand: empirical data from casinos.”
- Chen, D. L., Moskowitz, T. J. & Shue, K. “Decision making under the gambler’s fallacy: evidence from asylum judges, loan officers, and baseball umpires.”
- Clotfelter, C. T. & Cook, P. J. “The ‘gambler’s fallacy’ in lottery play.”
- Gilovich, T., Vallone, R. & Tversky, A. “The hot hand in basketball: on the misperception of random sequences.”
- Miller, J. B. & Sanjurjo, A. “Surprised by the hot hand fallacy? A truth in the law of small numbers.”
- Hacking, I. “The inverse gambler’s fallacy: the argument from design. The anthropic principle applied to Wheeler universes.”